Segunda-feira (28)/Bets: como as apostas online adoeceram e endividaram brasileiros

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Da Redação do Aconteceu Ipu

Saiba como as bets adoeceram e endividaram os brasileiros

O drama de quem perdeu tudo

“Um grande alívio.” Foi assim que Kaio*, de 42 anos, definiu o sentimento ao saber da notícia, na última sexta-feira (25), de que as operações das empresas de apostas on-line, as chamadas bets, haviam sido proibidas no Brasil.

Aos poucos, ele tenta reconstruir a própria vida depois de perder o carro, a casa e o emprego por causa das dívidas provocadas pelo jogo.

Atualmente, Kaio mora sozinho em um dormitório em uma cidade do interior de Goiás. Todas as noites, dorme no chão. Temendo pela própria segurança por causa de dívidas contraídas com agiotas, decidiu se afastar e permanecer longe da família.

Ele reconhece que, durante os últimos seis anos, o vício em apostas fez sua vida virar completamente do avesso.

Busca por tratamento

Diante da situação, Kaio decidiu procurar ajuda em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Neste ano, passou a participar de grupos terapêuticos e consultas médicas. Atualmente, toma três medicamentos por dia.

O caso dele representa uma realidade que passou a atingir milhares de brasileiros diante da expansão das apostas on-line e dos impactos financeiros, familiares e psicológicos provocados pelo vício.

Desde os primeiros alertas sobre o empobrecimento da população e o crescimento da dependência relacionada às bets, a Agência Brasil vem produzindo reportagens sobre o tema.

Bets foram aprovadas em 2018

A Medida Provisória 1394, que proibiu as bets no país e foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25), revogou o que estava previsto no capítulo 5 da Lei 13.756, de dezembro de 2018, aprovada no último mês do governo de Michel Temer.

Embora tenham sido autorizadas em 2018, as bets só foram regulamentadas em dezembro de 2023. Durante pelo menos cinco anos, portanto, as plataformas funcionaram sem um conjunto mais amplo de regras específicas.

Com a regulamentação, surgiram exigências como avisos de desestímulo ao jogo e advertências sobre os possíveis malefícios das apostas, que deveriam ser veiculados pelas empresas operadoras.

Vulnerabilidade e publicidade

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre as mais suscetíveis ao desenvolvimento de problemas relacionados aos jogos.

Segundo a especialista, parte dessas pessoas foi exposta a anúncios que transmitiam a falsa ideia de que as apostas poderiam funcionar como uma forma de complementar a renda.

A promessa de ganhos rápidos acabou atraindo pessoas que buscavam uma melhora financeira imediata, transformando as apostas em uma atividade potencialmente perigosa para quem já se encontrava em situação de vulnerabilidade.

Perdas bilionárias

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Segundo dados divulgados no Boletim Fiscal dos Estados, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets no período analisado.

O valor corresponde à diferença entre o dinheiro apostado e o que retornou aos jogadores em forma de prêmios.

No mesmo período, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix.

As perdas representaram 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das famílias, evidenciando o impacto econômico que o fenômeno das apostas passou a exercer sobre os brasileiros.

Regras e mecanismos de proteção

A legislação que regulamentava as bets previa, entre outras medidas, que as empresas bloqueassem o acesso de usuários identificados como jogadores compulsivos.

Segundo o advogado Júlio Leone, essa proteção não teria sido efetivamente colocada em prática como previsto. Paralelamente, jogadores continuavam recebendo bônus e anúncios das plataformas.

Kaio relata que também era constantemente bombardeado por mensagens no celular.

“O celular não parava de trazer mensagens”, conta.

Adolescentes também entraram no universo das apostas

O problema não ficou restrito aos adultos. Adolescentes também passaram a aparecer entre as vítimas da expansão das apostas on-line.

Um levantamento realizado a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação pela Equidade.info apontou que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disseram ter feito apostas on-line no último ano.

A pesquisa ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país.

Um dos dados mais preocupantes é a idade em que alguns jovens começaram a apostar. Pelo menos 9,5% dos estudantes de 11 anos disseram já ter realizado apostas.

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes são mais vulneráveis a esse tipo de estímulo porque o cérebro ainda está em processo de desenvolvimento.

As áreas relacionadas à sensação de prazer e à dopamina funcionam de maneira intensa, enquanto as regiões responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda não atingiram sua maturidade completa.

Consequências para a saúde mental

Profissionais de saúde relatam que apostadores de diferentes faixas etárias podem apresentar sinais como desesperança, sensação de não encontrar uma saída, afastamento de familiares e amigos, aumento do consumo de álcool e mudanças significativas de comportamento.

A psiquiatra Katia Branco alerta que falas relacionadas à morte ou à falta de vontade de continuar vivendo devem ser encaradas com seriedade e acompanhadas por profissionais de saúde.

Segundo a especialista, alguns pacientes apresentam níveis elevados de ansiedade diante dos prejuízos financeiros provocados pelas apostas. Em situações mais graves, podem surgir pensamentos relacionados à morte e ideação suicida.

A necessidade de buscar ajuda

O neurocirurgião Orlando Maia explica que pessoas com dependência em jogos podem incorporar as apostas à rotina em busca constante de mecanismos de recompensa. Muitas vezes, segundo ele, o próprio jogador não consegue reconhecer sozinho a dimensão do problema.

Por isso, familiares e amigos podem exercer papel importante na identificação da situação e na busca por ajuda profissional.

A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, recomenda que pessoas dependentes e seus familiares procurem atendimento especializado.

Segundo ela, os serviços de saúde recebem pessoas em situações extremas, inclusive pacientes que apresentam pensamentos suicidas ou que já tentaram tirar a própria vida.

Um cassino dentro do bolso

Outro fator apontado pelos especialistas é a facilidade de acesso às plataformas. As apostas podiam ser realizadas praticamente 24 horas por dia, diretamente pelo celular.

Luiz Carlos*, de 71 anos, integrante dos Jogadores Anônimos, resumiu a transformação provocada pela tecnologia ao afirmar que as apostas se tornaram “um cassino dentro do seu bolso”.

Para ele, a facilidade de acesso representa um risco ainda maior para quem enfrenta problemas com o jogo.

SUS amplia atendimento

Com o crescimento dos problemas de saúde relacionados ao vício em apostas, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou, em agosto, o número de teleatendimentos mensais destinados a pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas às apostas on-line.

Após o anúncio da proibição das bets na sexta-feira (25), o Ministério da Saúde informou que pretende ampliar os esforços para identificar apostadores contumazes e oferecer acompanhamento e tratamento quando necessário.

Segundo o ministro Alexandre Padilha, serão adotadas políticas de busca ativa, utilizando dados compartilhados pelos ministérios da Fazenda e da Segurança e pela Receita Federal.

O desafio agora é reconstruir vidas

A história de Kaio mostra que, para além dos bilhões movimentados pelas plataformas, existe uma dimensão humana que envolve famílias endividadas, empregos perdidos, relacionamentos destruídos e pessoas que precisam de tratamento para superar a dependência.

A proibição das plataformas abre uma nova etapa no debate sobre as apostas on-line no Brasil. Para quem já perdeu patrimônio, segurança e qualidade de vida, entretanto, o desafio mais imediato é outro: conseguir reconstruir a própria vida e encontrar caminhos para deixar o vício para trás.

*Nomes fictícios, utilizados a pedido dos entrevistados.

Por: Afranio Soares
(Redação do Aconteceu Ipu)


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** Postagem: Virginia Aragão Soares

(Direto da Redação do Aconteceu Ipu)

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